A moça dos panfletos

 

Na minha cidade, há uma moça que distribui panfletos na frente de um uma loja.

Ela veste jeans e camiseta branca.

Uma cena comum de qualquer cidade. Mas não é trivial o jeito como ela o faz.

Esses dias eu passei pelo local e retornei, fingindo ir até uma loja próxima, somente para vê-la mais um pouco.

Porque ela me alegra.

Ela desempenha o trabalho com grande entusiasmo, mesmo que poucos passantes aceitem o panfleto que ela divulga. Alguns pegam só para seguir o fluxo. A maioria joga na primeira lixeira, é apenas mais uma propaganda.

Eu também não quero levar comigo o panfleto dela.

Mas quero levar a leveza dela.

O que ela faz de diferente?

Vou descrever apenas uma das vezes que a vi, a primeira, porque depois desse dia, vou sempre por aquela rua para observá-la.

Eu avistei ela de longe. Tocava “Singles ladies”, de Beyoncé, na caixa de som que o estabelecimento coloca para atrair a atenção dos transeuntes – e para a minha felicidade, pra permitir a cena que me encanta.

A moça dança livremente enquanto entrega os panfletos. Já viram a coreografia da cantora norte-americana? A jovem, em diversos ímpetos, esboçava os mesmos passos. Não como uma atração programada. Não é uma artista contratada pela loja para entreter. Ela dança por dançar. Ela se deixa levar pela música. Ela dança para ela. Mexe seu corpo, como se estivesse numa festa, sem qualquer preocupação e sem ninguém olhando. Ela faz isso por divertimento. Porque se deixa levar pela música. Porque não tem pudor dos pensamentos alheios. Ela dança porque deve ser feliz. Porque não resiste a ser quem é. Ela dança como se pensasse “bem, já que estou aqui nesse momento, é melhor estar feliz e desfrutar do que ele pode me oferecer de bom”.

Percebi que a maioria das pessoas, da mesma forma que não aceita os panfletos, rejeita com o olhar essa postura dela. Ela não se importa. Ela dança.

Ouvi até um “olha, que louca!”. Ela não se importa, ela dança.

Alguns homens desocupados param e olham como se o fato de ela estar ali em seu molejo desse brecha para alguma investida sexual pra cima dela. Ela não se importa. Ela dança.

Indiferente a críticas, julgamentos e estranhamentos, ela é ela!

Ah, se tivéssemos essa capacidade de, alheios, agirmos conforme os nossos ímpetos mais naturais diante de todas as situações de nossa vida! Dançaríamos como ela? Não necessariamente, mas seríamos de alguma forma só nossa: livres!

Loucura é sermos prisioneiros dentro de nós mesmos.

Marciele Scarton –  Palestrante / Na Cabeceira da Mesa