Naiara e as meninas violentadas todos os dias em nosso país

Na semana passada eu não consegui escrever. Como de costume, eu gostaria de abordar assuntos que fossem motivadores e inspiradores para nós, mulheres, mas a morte da menina Naiara atormentava meus pensamentos, e naquele momento eu resisti falar a respeito de tamanha brutalidade, sobre algo tão triste e degradante sobre nossa raça: tão desumana.

Mas é preciso. Então, o faço nesta segunda. E deixo minha contribuição para manter o assunto em pauta.

Naiara Soares Gomes, sete anos de idade, foi raptada –  quando se deslocava cedo da manhã em seu trajeto diário a pé (cerca de 2,5 quilômetros)  para a escola – , estuprada, assassinada e jogada às margens de uma barragem, na cidade de Caxias do Sul-RS, por um criminoso desconhecido. Um crime que chocou a comunidade local, sobretudo diante da confissão do autor –  um cidadão aparentemente livre de suspeitas –  e dos detalhes perversos revelados por ele.

É quando um caso como esse, porque ocorreu bem próximo de nós,  destroça nosso coração, que nos comovemos e bradamos por justiça.

Chega a parecer que, apenas quando sentimos dor e tristeza, ou seja, somente quando nos impacta, esbravejamos para que algo seja feito. Chega a parecer que a justiça que queremos é pela dor e revolta que estamos sentindo, não apenas pela violência e brutalidade cometida à menina.

Mesmo que  distantes, casos de violência sexual contra meninas existem aos montes, todos os dias. Uma parcela deles, igualmente seguidos de assassinato. Uma parcela cometida por criminosos desconhecidos e perversos, como no caso de Naiara; mas a maioria por familiares ou pessoas próximas,  que não chegam a  matar, mas roubam a infância e torturam crianças durante anos. Dados das entidades de segurança e de proteção a crianças e jovens no Brasil, apontam que: 1 estupro a cada 11 minutos acontece em nosso país (e indicam que essa estatística diz respeito apenas a 10% dos casos existentes, porque a maioria deles não seriam denunciados); que 70% dos casos de violência sexual são cometidos contra crianças e jovens, que quase 70% dessas crianças e jovens que sofrem abuso e exploração sexuais são meninas, e que 40% delas tem entre 0 a 11 anos de idade.

É estarrecedor.  Mas números não embrulham nosso estômago. Para ferir nosso coração, parece ser necessário saber que a menina violentada e morta foi jogada como lixo em um lugar qualquer para apodrecer e nunca mais ser encontrada. É necessário que aconteça na cidade vizinha, em nosso bairro, na casa ao lado.

Para que outras meninas perto ou longe de nós não sofram tamanha atrocidade –  ou, que seja, para não nos machucarmos novamente com casos como o da menina Naiara –  precisamos nos importar mesmo com os casos que são apenas estatísticas. Deveríamos nos comover continuamente e fazer encorpar nossa voz enquanto integrantes da sociedade, a ponto de forçar políticas públicas de segurança, proteção e amparo mais efetivas para nossas crianças e o cumprimento das punições vigentes na lei aos criminosos, bem como o estabelecimento de penas mais rigorosas.

Precisamos nos posicionar contra a banalização dos casos de violência.

Precisamos não nos acostumar com os casos de violência, mesmo os que não pareçam atrozes.

Infelizmente, ainda é preciso que casos como o da menina Naiara aconteçam para nos chocar, para pensarmos e falarmos dessas questões, para colocar o tema em pauta e na timeline das redes sociais. Casos aterradores e transtornadores como esse  nos alertam de que o perigo pode estar bem próximo, mas também nos lembram que é real, existe massivamente, mesmo quando não nos atinge tão proximamente.

À menina Naiara, podemos apenas pedir desculpas por este elemento doentio, ou monstruoso, integrar livremente nossa sociedade, por nosso sistema não conceder a ela escola mais próxima ou transporte para o deslocamento à escola, por ninguém ter percebido  que – tão pequenina – estava sozinha, ou mesmo tendo percebido não se mover a oferecer auxílio. E derramar nossas lágrimas e expressar nossa tristeza e revolta.

Mas, passando a ser mais atentos e contestantes, quem sabe, quando nos couber fazer nossa parte, poderemos evitar que existam outras histórias como a de Naiara, com o  mesmo precoce e brutal desfecho.

Não desviemos o olhar ou finjamos não ter entendido quando nos depararmos com alguma atitude duvidosa. Vamos denunciar suspeitas de abuso e violência sexual junto ao Conselho Tutelar ou  por meio do “Disque 100” gratuitamente. As denúncias podem ser anônimas.

Vamos pesquisar, nos informar e escolher representantes que tenham em seus planos eleitorais projetos claros de proteção e combate à violência infantil e  de amparo a crianças em situação de risco ou vulnerabilidade.

Além disso, vamos ser, independentemente à ação governamental, solidários com crianças desassistidas ou carentes das mais diversas questões, como a impossibilidade de frequentar uma escola próxima de seu lar ou de contar com transporte particular para deslocarem-se até as aulas.  Há muitas Naiaras, que andam pelas ruas e percorrem longos trajetos sozinhas. O auxílio pode ser no formato de zelo com a coleguinha da filha ou filho na ida e volta da escola, na forma de uma mobilização na comunidade para garantir o transporte para todas as crianças e quem sabe até a ‘adoção’ de uma criança no que diz respeito ao suprimento de uma van, ônibus escolar ou de outro suporte para ela. Necessidades e formas de supri-las existem, basta estarmos atentos e dispostos a contribuir.

O desamparo já é, por si só, uma violência tremenda aos pequenos. Com  um pouco mais de atenção e de generosidade, podemos, no mínimo, acalentar o coração de uma criança e transformar significativamente sua rotina, quem sabe até evitar uma atrocidade que lhe ceife a vida.

Marciele Scarton – Palestrante / Na Cabeceira da Mesa

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