Vou ali, rapidinho, ser mãe e já volto (só que não!)

Vinte e um dias.

Hoje, faz três semanas que me tornei mãe.

Não tem como explicar, exatamente, a emoção que é.

Receber o filho no peito, logo após o parto, e ver aquele novo ser te agarrando e sugando instintivamente, sedento de ti, é arrebatador. É ocitocina pura adentrando todos os poros. É uma overdose de amor, na forma de hormônio, injetada na gente. É vínculo, enraizado durante nove meses, que o corte do cordão umbilical não é capaz de desfazer, ao contrário, amplia. É para sempre.

Somente nesse momento, entendi o verdadeiro sentido de ser mãe. E essa experiência ressignificou muitos conceitos (e preconceitos) que eu tinha sobre a maternidade.

Eu pertenço a uma geração na qual, para muitas mulheres, a maternidade foi relegada, adiada, como são as tarefas menos importantes.

Desde cedo ouvi frases do tipo “primeiro tu vai estudar, se formar, ter tua profissão, depois vai pensar em namorar, casar e ter filhos”.

Porque sou fruto de uma geração que teve filhos precocemente, deparando-se com a obrigação de assumir tal responsabilidade muito antes do que teria planejado.

Porque sou fruto de uma geração que foi humilhada e sofreu variados tipos de violência em seus partos; sou filha de uma geração cujas mulheres jamais ouviram de alguém o quanto elas foram incríveis – e abençoadas – e sortudas – e maravilhosas –  por terem tido seus filhos de forma natural, ao contrário, sou filha de uma geração de mulheres que com o passar do tempo consideram-se desafortunadas por na época delas não haver alternativa para o nascimento de seus filhos.

Porque nasci depois de muitas gerações de  mulheres que enfrentaram todo tipo de submissão por poderem ser ‘apenas’ mães donas de casa.

Porque sou filha de uma geração que viu as mulheres depois delas conquistando muito mais, além da maternidade  – autonomia, independência financeira, uma profissão fora de casa, liberdade de escolha….

Nesse contexto, foi sempre mais marcante para mim o que me pintaram de ruim e desvantajoso em relação a ser mãe do que as emoções sublimes que poucas vezes rapidamente relataram-me.

Também porque o “ser mãe é tudo de bom”, geralmente vinha acompanhado com um “mas” e uma lista interminável de pesares como “mas é trabalhoso, é estressante, toma o tempo todo, te rouba o sono, a beleza”… e por aí vai.

Quem vai querer encarar tão logo uma lista dessas?

Confesso que, em parte por isso, o desejo de ser mãe nem sempre esteve em meu coração.

E alertavam-me desses prejuízos todos, deixando claro que, praticamente, não haveria escapatória, ‘sendo regra toda mulher ser mãe’.

Então, confesso também que por muitos anos eu posterguei esse momento. Pretendia adiar o máximo possível.

E nas poucas vezes que pensava, superficialmente na maternidade, supunha-a como algo pra ir ali, fazer rapidinho (durante quatro meses de licença), e voltar o quanto antes a ser a super mulher de sempre, aquela que fazia mil outras coisas em sua vida frenética.

Até o momento em que fui. E a gente vai se tornando mãe ainda um pouco antes de engravidar. São sentimentos que vão despertando e tomando conta da gente ainda antes da gravidez, se intensificam na gestação e extravasam no momento que o rebento chega aos braços e nas primeiras semanas com ele.

E nessa transformação em mãe a gente se descobre heroína capaz de fazer com naturalidade outras mil coisas mais, como se um chip com uma infinidade de outros superpoderes tivesse sido instalado de uma hora pra outra na gente. E, então, muitas vezes, de lá para cá, eu tive vontade de ir até todas as mães que eu conheço e perguntar para elas:

– por que vocês nunca me disseram o quanto era sensacional gerar dentro da gente uma vida, com membros, cérebro, sim com cérebro, um ser humano inteirinho, ao mesmo tempo em que conversamos, estudamos, trabalhamos e seguimos nossa vida?

– por que vocês sempre me falaram dos enjoos e da azia, se elas nem acontecem para todas?

– porque enfatizavam tanto a frequência com que precisamos esvaziar a bexiga, se tão rapidamente nos acostumamos com as visitas ao banheiro durante a gestação?

– por que sempre salientaram os movimentos fortes do bebê que chegavam a empurrar seus órgãos, se a sensação dos chutinhos foi das mais prazerosas que já tive em toda a minha vida?

– por que sempre me falaram que as mulheres raramente recuperam a forma física de antes da gestação, se a gente se sente linda mesmo com 20 quilos a mais?

– por que não me descreveram de forma mais detalhada e enfática a emoção que envolve o parto? Porque me falaram tanto das dores e tão pouco das doces sensações desse dia?

– por que sempre fizeram piada para que eu estocasse sono, se a gente descobre que é capaz de fazer o que não era antes, mesmo que sejam coisas inimagináveis como dormir um número muito reduzido de horas e saltar da cama com um sorriso no rosto e disposição?

– por que me falaram que o pós-parto seria tão tenebroso, se nele estou descobrindo a cada instante que sou superdotada de requisito extremamente valorizado no mercado de trabalho e que todo excelente profissional destaca entre suas habilidades? Estou falando da resiliência!

– por que me listaram uma infinidade de questões negativas que, supostamente, eu ainda terei de enfrentar em todas as fases que seguirão a esses 21 dias, se o abraço,o olhar, o carinho, a companhia e o amor do filho certamente serão a mais grandiosa recompensa?

– porque não me contaram que a maternidade empodera verdadeiramente mais do que qualquer livro, curso ou palestra sobre o feminino?

Onde eu quero chegar com esse discurso?

No dever que sinto ter, juntamente a todas as novas mães, de que é preciso parar de amedrontar as mulheres em relação à maternidade. As experiências negativas que uma ou outra  possa ter tido não devem desencorajar outras mulheres à maternidade. Que possamos relatar, sim, que na maternidade nem tudo é rosinha ou azul-bebê (mas que ela tem todas as cores e nuances e por isso é maravilhosa). Que possamos narrar o quanto é visceral, intensa (o que não  quer dizer ruim). Que possamos ser mais leves enquanto mães e incentivar (o que não quer dizer impor) outras mulheres em vez de desanimá-las. E que assim, cada mulher de nosso convívio, se escolher ser mãe, ingresse nessa jornada com menos pesos e receios.

Que eu possa com essa expressão positiva da maternidade fazer minha mais sincera homenagem a todas as mães  e com as palavras a seguir eu possa alentar as que desejam, mas ainda temem ser.

Sim, tudo muda: as estações, a cor e o comprimento dos cabelos,  as formas do corpo, o apetite, o cenário, os interesses,  as expectativas, muitas convicções, a noção e relação com o tempo, a rotina. E há muita pressão para que a gente volte rapidinho ao que era antes da gravidez. O corpo, e tudo que envolve sua fisiologia, eu acredito que sim, retorna, porque é apenas um empréstimo, logo é devolvido a cada uma.  Mas o que muda uma vez na alma, dificilmente regressa.

Não, não dá pra ir ali, rapidinho, ser mãe, e voltar. E isso não é ruim, nem deve desestimular. Ao contrário, não tema, porque em quem a gente se transforma, acredite, é alguém bem melhor (e muito, muito mais poderosa).

Marciele Scarton – Palestrante / Na Cabeceira da Mesa

*Foto, credito: autorretrato primeiro dia das mães, Marciele Scarton.

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