Comparação: a dor da baixa autoestima pós-parto

 

Aí você espera a vida toda para ser mãe, planeja esse momento ímpar da sua vida em muitos detalhes.

Mas não planejou parir no mesmo dia que Kate Middleton. E, sobretudo, não planejou sair do hospital após o parto com a barriga maior do que a barriga que ela entrou.

Como a gente se compara!

Desde o jardim de infância a gente se compara com a coleguinha.

Na adolescência, a gente se compara com as amigas (e com as inimigas, então!)

Depois, adultas, com as colegas de trabalho, com as vizinhas.

A gente se compara com as capas de revista, com as fotos reluzentes do Facebook e com as musas fitness do Instagram.

É, a gente se compara até com a ‘princesa’ da Inglaterra.

E na gravidez não é diferente.

A gente compara a disposição e a indisposição, os enjoos, as dores e desconfortos, o sono…. e os quilos, ah os quilos!

A gente se compara com a conhecida que disse ter engordado 20 quilos, mas saído do hospital já sem todos eles e vestindo a mesma calça jeans que usava antes das gravidez (e  a gente leva o jeans pro hospital e descobre que ele não entra nem nas pernas e que você não perdeu sequer o peso do bebê).

A gente se compara com a modelo (que nem está gravida) da propaganda de roupa para gestante.

A gente compara a foto da artista –  vestindo lingerie sexy –  encenando amamentar com a realidade estampada na imagem descabelada, com olheiras e roupão imenso de soft, que vê no espelho em frente de onde amamenta.

A gente vai se comparando…. e sofrendo… e ficando ansiosa… e não fala nada pra ninguém –  porque tudo tem de estar bem contigo, com o filho no colo e um sorriso no rosto  –  e todos te dizem que logo, logo, estará igual a antes da gravidez… e esse “logo”  parece muito distante só pra gente… e dificilmente a gente para pra se perguntar se a aflição pra voltar ao corpo de antes é mesmo nossa ou é dos outros.

A sociedade tem dificuldade de conviver com a mulher do pós-parto. Todos querem que a nova mãe volte a ser a mesma de antes, que emagreça depressa e se mostre esplêndida na primeira oportunidade.

E por isso a gente se compara um dia após o parto com as mulheres que a gente só vê 60, 90 ou 120 dias pós-parto. E muitas vezes isso acontece porque a mulher fica reclusa  até considerar que recuperou ao menos minimamente o padrão exigido para voltar a ser aceita pelos olhos dos outros. Ah como o medo da incompreensão do olhar alheio nos atormenta.

É por isso que nos primeiros dias em casa – muitas vezes ainda na maternidade –  a gente se depara com aquela cinta, que nos advertiram para levar na bolsa e usar por pelo menos 30 dias pra fazer a barriga voltar mais depressa pro lugar. E a gente corre para colocá-la como se ela fosse nos integrar instantaneamente à sociedade das mulheres perfeitas e esbeltas.

Só que a cinta, tal qual a comparação, machuca, nos marca, muitas vezes nos deixa sem ar.

Então, eu me vi diante de duas alternativas.

Alternativa 1: Seguir usando para o alento alheio, passando a ouvir murmúrios como “nossa, como tua barriga já diminuiu” e ao tirá-la  ficar apenas eu com tudo aquilo que recaia sobre meu abdômen, mas que eu poupava à visão dos outros.

Alternativa 2: aceitar aquela nova forma e me permitir o convívio amoroso com ela por pelo menos o mesmo tempo que levei para conquistá-la.

Eu escolhi a número 2 e te conto o porquê. Assim que comecei a colocar a cinta, ela apertou de tal forma meu corpo que percebi a violência que estava cometendo comigo. Eu estava maltratando (e tentando suprimir) a mesma parte de meu corpo que eu tanto desejei e evidenciei nos meses anteriores. Aquela protuberância era meu útero ainda aumentado. Como eu poderia odiá-lo, negá-lo, escondê-lo ou querer que ele desaparecesse como num passe de mágica? Sim, aquele volume ‘odioso’ foi a casa do meu filho, é a parte de mim – tão valiosa –  responsável por gerar e abrigar vida. Então, foram a tristeza e a ansiedade que desapareceram num instante, se dissolvendo com um sorriso meu tão grande quanto aquela barriga pós-parto.

E, assim, eu passei muitos dias acariciando e tratando bem minha linda pancinha mole, quase com tanto carinho como se dentro dela ainda tivesse meu bebê. Imagine a pessoa acariciando o que para os outros não passa de uma pança. É divertido, engraçado. Tem de ser, quando sabemos e valorizamos o significado dela. E toda vez que me desagradou o que eu vi no espelho nos primeiros 30 dias pós-parto, eu peguei no colo o motivo de cada uma das transformações que vi refletidas, então foi tão fácil amá-las e sorrir largamente para cada uma delas!

Felizmente, somente depois de ter aceitado, amado e acariciado minha nova barriga foi que ouvi um tosco radialista comentar em seu programa sobre o retorno de Ivete Sangalo aos palcos, três meses após o parto das gêmeas. A avaliação, com tom de deboche, que ele fez foi de que ela ainda  estava bem “fortinha”.

E assim resolveu-se a questão da baixa autoestima pós-parto definitivamente em mim: minha amiga, se falam da Ivete, imagine se não vão criticar nossos corpos de mulheres mortais! Bem, a questão é que isso é problema de quem o fizer, porque a gente estará se amando incondicional e verdadeiramente, combinado?

Marciele Scarton – Palestrante / Na Cabeceira da Mesa

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