Amamentar não é sobre aumentar gramas, é sobre ampliar nosso coração e abastecer o do outro

 

Uma reflexão sobre os julgamentos relacionados ao ato que deveria dizer respeito apenas à díade mãe-bebê

A amamentação é mais uma das infinitas formas de julgar a mulher.

Julgamento alheio, muitas vezes feito por outras mulheres. Outras tantas vezes, julgamento próprio,  o que é ainda mais entristecedor.

Se amamenta em público, sofre constrangimentos. Se opta por só amamentar na intimidade: “_não prioriza o filho”.

Se amamenta, mas o filho não ganha peso: “_ seu leite é fraco ou insuficiente”.

Se complementa com fórmulas: “_ ela que foi fraca e não insistiu o suficiente”.

Se dá mamadeira: “_ o peito também, pra quê?”.

Se os peitos não doem: “_ é porque nem tem leite e o bebê só está  fazendo-a  de chupeta”.

Passou dos seis meses amamentando? “_ Humm… será que o ganho nutricional é mesmo comprovado após esse tempo, para estender tanto?”.

“_E o marido não sente falta?”. Me reviro na cadeira ao escrever essa, mas aqui está porque não é incomum ouvi-la.

Não amamentou? “_Essa aí só pensou na própria dor e conforto”.

Se planejava amamentar por determinado tempo e por algum motivo não foi possível, se culpa, se frustra,  é tomada pela depressão.

E por aí vai…..

A amamentação, seja por livre demanda, seja com horários, seja no restaurante ou a quatro paredes, só diz respeito à mãe e ao bebê. Nessa história, sim, ninguém tem nada que meter a colher.

Campanhas de incentivo são importantíssimas e é preciso aproveitá-las para ir além do tema objetivo a que se propõe, como a importância nutricional do leite materno, porque geralmente  perpassam questões mais profundas, neste caso, a liberdade de escolha ao amamentar, sem imposições, julgamentos e frustrações. Um ato natural.

Portanto, como mãe recente, aproveito o #agostodourado para deixar a seguinte mensagem para as mulheres que possam acessar esse texto.

Amamentar não é  apenas sobre aumentar gramas, é sobre ampliar nosso coração e acalentar o daquele que está sedento da gente. É sobre permitir, doar-se. Dar-se. Entregar-se. É sobre ser luz, energia, abundância (de amor, não, necessariamente, de leite). Não, não é a única forma de prover isso. Mas é uma forma. E se acontecer pra você e seu/sua bebê, que seja  porque os dois desejam, e do jeitinho de vocês, num encaixe ímpar, suave, sem regras, palpites ou intromissões. Também, que seja no tempo de vocês e enquanto for prazeroso para ambos, não importa se por dias, meses ou anos. E quando findar, que seja sem culpas, frustrações ou ressentimentos. Se for, que seja para deixar saudade e um sorriso no rosto ao lembrar!

Digo isso, porque:

  • O leite materno é comprovadamente o melhor e mais completo alimento para o recém-nascido. Ele fornece todos os nutrientes, vitaminas e minerais de que  o bebê precisa para o crescimento durante os primeiros meses. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a mãe amamente os filhos, durante os primeiros seis meses de vida, exclusivamente com leite materno. E, por isso, a importância do incentivo e suporte para que a mãe o faça com liberdade e persista ( na minha opinião, dentro do que for o seu desejo e limite).
  • Contudo, a amamentação –  por uma série de fatores que diferem de mulher para mulher –  não acontece para todas exatamente como a cartilha recomenda. Não se ressinta. Você, certamente irá nutrir seu filho ou filha, física e psicologicamente, de muitas outras formas, sendo  uma mãe igualmente incrível.
  • Sou contra qualquer tipo de extremo. Abomino os pensamentos retrógrados, sexistas e preconceituosos, que desestimulam a mulher a amamentar ou a fazem amamentar por muito menos tempo que poderia/desejaria (alguns exemplos: há até quem diga que “os seios ficarão flácidos e nunca mais voltarão a ser os mesmos”, que “é desconfortável” ou que pergunte “vai ficar com as tetas pra fora, com o gurizão pendurado até quando?” ou “aqui, na frente de todo mundo?”. Parece coisa de cinquenta anos atrás, mas é de 2018. Também sou contra a amamentação a qualquer custo, aquela que obriga a mulher a amamentar sangue, sofrendo, com os peitos rasgados, “porque é dever dela prover o filho pelo menos até os seis meses” ou por que, acredite, já ouvi essa por aí também: “vai fazer uma baita economia, se der só os peitos”. Nesse sentido, reproduzo aqui um comentário que vi na internet um dia desses: mais vale uma mamadeira bem dada do que um peito com rancor.
  • Para as mulheres que a amamentação flui, também existem variáveis: há a amamentação exclusiva, a prolongada, há aquela que recebe complementos, há aquela que eu gosto de chamar de emocional (o leite quase não verte, mas o amor, o afeto, o aconchego, seguem jorrando)…
  • Não permita que o olhar ou a língua alheia sejam impeditivos para a amamentação acontecer ou prosseguir.  É entre você e seu filho. Suas, apenas suas, regras. Não existe uma receita ideal.
  • Existem muitos mitos. Se sentir que precisa de auxílio, busque informação de qualidade, profissionais empáticos, experiências positivas, não palpiteiras. Com a fulana foi assim, com a sicrana assado. E com você, possivelmente, será de um terceiro jeito, só seu e de seu bebê.
  • Posso compartilhar como foi para mim, só para adicionar e reforçar que as experiências de amamentação são diferetes. Não existem duas exatamente iguais. A minha é apenas mais uma. Eu não havia idealizado nada sobre a amamentação. Mas comecei  a me deparar durante a gestação com a ansiedade das mulheres à minha volta me entregando receitas “pra preparar os peitos, pra não sofrer tanto depois”. A questão é que as formas de preparar os seios eram pequenos atos de tortura. Então eu pensei: se é para doer, que doa uma única vez, não vou sofrer por antecipação, não vou fazer nada disso que me propõem. E criou-se um monstro na minha cabeça sobre o ato de amamentar. Comecei a ler a respeito e alguns relatos me assustaram, o que me fez decidir: “chega, vou esperar para ver o que acontece. Se a gente se encaixar, ótimo, se não, tudo bem também”. Não esquentei com isso. E para minha surpresa, o Antoni veio sedento e certeiro para  meu peito,  não doeu nada e não aconteceu nada do horror todo que me pintavam. Ao contrário, foi prazeroso. Ele veio sabendo sugar, com a pegada perfeita. Senti uma explosão de amor. Aconteceu com a gente. Fluiu. Foi natural. E eu pensei que amamentaria exclusivamente. Mas em um mês ele, que nasceu com quase quatro quilos, diminui peso e não recuperou conforme o recomendado. Me culpei? Sofri? Não. Tomei a decisão que minha mente, meu coração e meu filho me apontaram.  Não, não foi a tabela de crescimento  a responsável pela decisão de complementar com fórmula industrializada de leite, foi a fome  que eu sentia no meu pequeno.  Se olharmos para dentro, de nós e deles, as respostas mais sensatas estão todas à nossa disposição. E da mesma forma que percebia nutricionalmente ele se satisfazer na mamadeira, sentia que de carinho ele se satisfazia no peito. A cada mamada no seio, o olhar marejado que dizia “obrigado”, o sorrisinho de quem estava acalentado e a cabecinha que se aninhava como se sussurrasse “por ora, também é importante para nós dois, mamãe”. Então, assim seguimos com o peito e a mamadeira, aos três meses e meio. No nosso caso, gostamos de intimidade, o local precisa ser só nosso. No máximo, a companhia do papai (isso se não estiver fazendo muito barulho). Antoni revira os olhos se tem algum olhar sobre nós e para de mamar se há  muita conversa ao redor do nosso momento. Mas essa é nossa história, só nossa. E seguiremos esse capítulo até quando acharmos que devemos. O assunto diz respeito a nós dois, portanto qualquer caminho diferente do atual, será decidido conjuntamente, entre mim e Antoni.
  • E para encerrar a reflexão que propus: o peito precisa estar carregado de amor! Essa é a única condição para amamentar. Simples assim.

Marciele Scarton – Palestrante / Na Cabeceira da Mesa

Foto: Marciele e Antoni.